segunda-feira, 19 de março de 2007

Sobre amor e chuva

- Será que vai chover?
Foi assim que João, meu amigo desde a infância, abordou pela primeira vez Cristina para uma conversa numa tarde de muito calor em que todos nós, muito jovens na época, estávamos com os hormônios em ebulição em busca do mínimo de atenção do sexo oposto.
- Mas que papinho mais manjado!
Pensei eu comigo mesmo a respeito do assédio, se é que assim poderia se chamar, de João a Cris. Mas, a tarde foi passando e João começou a engrenar em papo mais interessante e, não é que ele conseguiu? A Cris ficou caidinha com o papo-cabeça que o cara jogou e, ao final daquela tarde eles estavam namorando. E, o pior não é isso! O pior é que durou. Os dois estão juntos até hoje. Casaram, tiveram filhos. Só não digo que foram felizes para sempre por que esse negócio até criança sabe que não existe.
Teve um tempo que eles se separaram. Eu soube que o ele andou “pulado a cerca” e a Cris ficou uma arara com ele por um tempo, mas eles logo conseguiram superar essa barra e outras tantas que vieram antes e depois disso e estão juntos até hoje.
E agora estou eu aqui com um pouco (muito!) mais de quarenta, cheio de cabelos brancos numa cama de hospital com uma doença sem cura que pode me matar a qualquer momento. Olho pra mim e minha vida cheia de “amassos”, cheia de gatinhas, cheia de curtição, mas sem esposa, sem filhos, sem legado. Sem um mínimo de “papo” com o sexo oposto desde a minha adolescência até hoje. Então, olhando pra minha vida e para a de meu amigo João (que é a única pessoa que me visita no hospital), vejo quem teve sorte e quem não teve, quem soube aproveitar a vida e suas oportunidades e quem não soube e fico pensando:
-Que falta faz uma “conversinha manjada” de vez em quando, pois ela pode gerar felicidade para o resto da vida.
E eu sempre querendo ser o mais original em tudo que fazia. Queria eu ter tido a mesma coragem meu amigo teve de chegar em uma garota que realmente valesse a pena e perguntar: -Será que vai chover?

domingo, 4 de março de 2007

Pequeno Conto de Verão

Estávamos no verão daquele ano. Parecia o verão mais quente que Deus poderia conceber. Uma menina de olhos e cabelos cor-de-mel, com mais ou menos oito anos brincava à tardinha no balanço de um parque da cidade acompanhada de uma coleguinha sua que estava no balanço ao lado e balançava-se em alta velocidade.

A criança de cabelos cor-de-mel fechou seus olhos por alguns instantes e, quando os abriu, tudo parecia diferente. O que era parque tornou-se um quarto de chácara e o que era multidão tonou-se apenas a própria criança. Ela olhou para o lado e viu que se enganara, pois não estava só naquele estranho lugar. Havia uma linda moça loira vestida de noiva e com as mãos sobre o ventre, que com os olhos cheios de lágrimas disse:
- Por favor, me ajude. Eu acabei de casar e, na noite de núpcias meu marido teve uma crise de ciúmes, disparou uma arma de fogo contra mim e depois se matou. Disse, dando um papelote com o endereço de uma chácara localizada nos arredores da cidade.

A criança viu então o sangue correr do abdômen da vítima, sujando suas mãos e fazendo uma pequena poça no chão. Então, por ter visto na televisão pessoas ajudando os outros com a respiração boca-a-boca, pôs-se a tentar do seu jeito desajeitado fazer a moça voltar à respirar.
Então, tudo mudou novamente e o sangue que empoçava o chão do quarto, agora empoçava a grama. Logo ela percebeu que estava de volta ao parque aparentemente beijando sua coleguinha que tinha caído do balanço ao lado e esfolado o joelho em uma pedra que estava no gramado.
Todos olhavam para a pobre criança com olhares de afiada reprovação, dizendo:
- Tão pequena, e já pensa nessas safadezas.
- E o pior. Com outra menina!
- Isso deve ser por que ela viu na televisão.
- Isso é coisa do Demo.

A criança tentou se explicar mostrando o bilhete e de todas as formas mais que pôde pensar, mas todos insistiam em não entender, achando que ela tinha um sério problema e que devia ser tratada. Quando o assunto chegou aos ouvidos dos pais, logo a encaminharam para um médico e ela sempre insistia em exibir o bilhete, o que irritou seu pai, que logo o arrancou da mão de sua filha com violência e o depositou no bolso. O médico, querendo se mostrar o dono da razão, já foi logo dizendo:
- Este caso é grave. Precisamos de fortes medicações e de um período de internação.

Um dia e muitos calmantes depois do "incidente", apareceu no noticiário televisivo e em todos os jornais impressos da cidade a notícia da morte de uma bela jovem loira vestida de noiva e de seu marido acompanhada da suspeita de que, se a moça tivesse sido socorrida à tempo, ela teria grandes chances de sobreviver. O pai, então, lembrou-se do bilhete que no dia anterior havia tomado da filha e observou que o endereço escrito no bilhete batia com o do crime.

A criança, ainda meio anestesiada pela medicação, inocentemente, disse:
- Eu não disse, papai? Se o senhor tivesse me escutado, a moça teria sobrevivido.