quinta-feira, 14 de junho de 2007

Fossa

Tá doendo ser gente,
ser gente às vezes dói.
Solid - desilus (ão),
tudo é real.

Se você não acredita,
o dia amanhecerá.
Moças de bochechas rosadas,
pedras que choram,
pode perguntar!

Mas quando a inesperada hora
for exata,
saber de nada adiantará.

É preciso experimentar a decadência
assim como algum vício,
prazeres e desprazeres
com vinho, lágrimas ou gargalhadas.

Faça sua opção
mas não vale apelar
aos pulsos ou coisa parecida
pois o alívio irá além da conta.

Sentinela

O ônibus já demorou mais de hora
mas ainda vou,
vou chegar atrasado,
mas vou!

Não é o que fazem contra,
mas o que faço de mim.

Como quem anda de carroça chego
acordando cedo
e não voltando a dormir,
nunca mais.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Eu e a Tv

Ô vida sem graça,
até quando prolongá-la?
conquista da mulher amada,
filhos, projetos alcançados...
difícil optar,
fácil e engraçado pensar
Mais uma cerveja, senhora solidão.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

...

...
Pouco dinheiro,
Muitos problemas.
Poucos amigos,
Muitos dilemas.
...

segunda-feira, 19 de março de 2007

Sobre amor e chuva

- Será que vai chover?
Foi assim que João, meu amigo desde a infância, abordou pela primeira vez Cristina para uma conversa numa tarde de muito calor em que todos nós, muito jovens na época, estávamos com os hormônios em ebulição em busca do mínimo de atenção do sexo oposto.
- Mas que papinho mais manjado!
Pensei eu comigo mesmo a respeito do assédio, se é que assim poderia se chamar, de João a Cris. Mas, a tarde foi passando e João começou a engrenar em papo mais interessante e, não é que ele conseguiu? A Cris ficou caidinha com o papo-cabeça que o cara jogou e, ao final daquela tarde eles estavam namorando. E, o pior não é isso! O pior é que durou. Os dois estão juntos até hoje. Casaram, tiveram filhos. Só não digo que foram felizes para sempre por que esse negócio até criança sabe que não existe.
Teve um tempo que eles se separaram. Eu soube que o ele andou “pulado a cerca” e a Cris ficou uma arara com ele por um tempo, mas eles logo conseguiram superar essa barra e outras tantas que vieram antes e depois disso e estão juntos até hoje.
E agora estou eu aqui com um pouco (muito!) mais de quarenta, cheio de cabelos brancos numa cama de hospital com uma doença sem cura que pode me matar a qualquer momento. Olho pra mim e minha vida cheia de “amassos”, cheia de gatinhas, cheia de curtição, mas sem esposa, sem filhos, sem legado. Sem um mínimo de “papo” com o sexo oposto desde a minha adolescência até hoje. Então, olhando pra minha vida e para a de meu amigo João (que é a única pessoa que me visita no hospital), vejo quem teve sorte e quem não teve, quem soube aproveitar a vida e suas oportunidades e quem não soube e fico pensando:
-Que falta faz uma “conversinha manjada” de vez em quando, pois ela pode gerar felicidade para o resto da vida.
E eu sempre querendo ser o mais original em tudo que fazia. Queria eu ter tido a mesma coragem meu amigo teve de chegar em uma garota que realmente valesse a pena e perguntar: -Será que vai chover?

domingo, 4 de março de 2007

Pequeno Conto de Verão

Estávamos no verão daquele ano. Parecia o verão mais quente que Deus poderia conceber. Uma menina de olhos e cabelos cor-de-mel, com mais ou menos oito anos brincava à tardinha no balanço de um parque da cidade acompanhada de uma coleguinha sua que estava no balanço ao lado e balançava-se em alta velocidade.

A criança de cabelos cor-de-mel fechou seus olhos por alguns instantes e, quando os abriu, tudo parecia diferente. O que era parque tornou-se um quarto de chácara e o que era multidão tonou-se apenas a própria criança. Ela olhou para o lado e viu que se enganara, pois não estava só naquele estranho lugar. Havia uma linda moça loira vestida de noiva e com as mãos sobre o ventre, que com os olhos cheios de lágrimas disse:
- Por favor, me ajude. Eu acabei de casar e, na noite de núpcias meu marido teve uma crise de ciúmes, disparou uma arma de fogo contra mim e depois se matou. Disse, dando um papelote com o endereço de uma chácara localizada nos arredores da cidade.

A criança viu então o sangue correr do abdômen da vítima, sujando suas mãos e fazendo uma pequena poça no chão. Então, por ter visto na televisão pessoas ajudando os outros com a respiração boca-a-boca, pôs-se a tentar do seu jeito desajeitado fazer a moça voltar à respirar.
Então, tudo mudou novamente e o sangue que empoçava o chão do quarto, agora empoçava a grama. Logo ela percebeu que estava de volta ao parque aparentemente beijando sua coleguinha que tinha caído do balanço ao lado e esfolado o joelho em uma pedra que estava no gramado.
Todos olhavam para a pobre criança com olhares de afiada reprovação, dizendo:
- Tão pequena, e já pensa nessas safadezas.
- E o pior. Com outra menina!
- Isso deve ser por que ela viu na televisão.
- Isso é coisa do Demo.

A criança tentou se explicar mostrando o bilhete e de todas as formas mais que pôde pensar, mas todos insistiam em não entender, achando que ela tinha um sério problema e que devia ser tratada. Quando o assunto chegou aos ouvidos dos pais, logo a encaminharam para um médico e ela sempre insistia em exibir o bilhete, o que irritou seu pai, que logo o arrancou da mão de sua filha com violência e o depositou no bolso. O médico, querendo se mostrar o dono da razão, já foi logo dizendo:
- Este caso é grave. Precisamos de fortes medicações e de um período de internação.

Um dia e muitos calmantes depois do "incidente", apareceu no noticiário televisivo e em todos os jornais impressos da cidade a notícia da morte de uma bela jovem loira vestida de noiva e de seu marido acompanhada da suspeita de que, se a moça tivesse sido socorrida à tempo, ela teria grandes chances de sobreviver. O pai, então, lembrou-se do bilhete que no dia anterior havia tomado da filha e observou que o endereço escrito no bilhete batia com o do crime.

A criança, ainda meio anestesiada pela medicação, inocentemente, disse:
- Eu não disse, papai? Se o senhor tivesse me escutado, a moça teria sobrevivido.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

A consciência do poço

Eu poderia me suicidar esta noite!
Mas não vou fazê-lo, agora.
Pelo contrário,
Já que estou no fundo do poço,
Vou apertar a mão do diabo
E fazer piadas sobre Deus!

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Aliados

Nunca estou contra ninguém,
Mas estou sempre a meu favor
Como todos sempre estão,
Mas poucos têm coragem de dizer

Sou meu único verdadeiro aliado
E me defendo como tal,
Ainda que, às vezes, ficando calado
Mas sempre me afastando de todo mal

Olho pros lados e vejo coisas iguais
E pessoas iguais ao que eu não quero ser
Estão longe demais
De tudo que se pode perceber

Pois todos vivem na mentira
De que está tudo bem
E não precisam ir além
Não querem sair dessa ilha

Preferem viver na ilusão
De que tudo conspira a favor
E que o mundo se resume a uma equação
Maniqueística: Ódio x Amor.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

A fuga do cozido

Na casa de um amigo meu, jantando a gentileza oferecida minutos antes, e com o cão olhando pra mim (o canino) suspeitei da saborosa carne que ainda não conseguira identificar. O cachorro mancando, o camarada babando enquanto degusta o prato e eu conjecturando como tivera sido preparada aquela maravilha de carne. Carne do churrasco que não rolou como havíamos combinado. Foram 15 reais investidos num assado que saiu cozido, entretanto, uma delícia.

Resolvi perguntar ao colega que carne era aquela e como fora preparada. Ele disse que se tratava de uma caça especial e preparada com um segredo de família. Daí só me restou imaginar. Terminada a refeição, foi hora daquele doce. Também muito saboroso, e estranho: goiaba com castanha! Mas, depois que ele serviu a vasilha do cão com as sobras da tal caça especial, percebi que o canino não comungava dessa opinião. Depois de uma cheirada muito cuidadosa o animal virou as costas com a calda balançando, parecia feliz por perceber alguma coisa bem a tempo.

A explicação do anfitrião foi a de que o cachorro já estava acostumado à ração. O problema é que tenho uma cadela e a danada come tudo que lhe apareça. Agora, a carne saborosa de antes me causava náuseas. Estava extremamente incomodado pelo fato do cachorro rejeitar o prato que eu e seu dono havíamos saboreado. Talvez fosse, mesmo, o hábito alimentar do Satanás, mas, fiquei muito intrigado.

Até então eu não sabia o nome da criatura. Só depois que recusara a oferenda é que o dono o chamara pela primeira vez: “que comer hoje não, Satanás?”. Descrente, mas temeroso de coisas sobrenaturais e de fé, entrei no que posso denominar de pânico controlado, com o cu que não passava uma agulha e demonstrando tranqüilidade. Para que tenha uma idéia, até elogiei de criativo o nome escolhido pro cão que, aliás, era muito angelical.

O cãozinho que cheirava os meus pés na chegada à sua casa, agora rosnava sempre que eu passava perto dele. Certamente fiz algo que o ofendera ou ia contra os seus princípios, mas ainda não sabia o que. Seu dono, que presenciara a receptividade, justificava a reação: “ele ta te estranhando”. Porém, sentia no fundo do meu ser a indicação de que o animal, com todas as limitações características de sua bestialidade, queria dizer-me alguma coisa, fazer uma denúncia para alcançar justiça.

Já eram 21h quando sentamos pra ver um filme de terror: sexta-feira 13- parte 552. Era o gênero preferido do cidadão. No rack, além da TV, óbvio, me chamara atenção as fotografias de uma bela moça, que mesmo emoldurada me encantou. Quando não estava retratada ao lado do Artur (o cidadão) estava com o Satanás. Então perguntei de quem se tratava, ele disse que era Alicia, sua esposa, que abandonara o lar dias antes. Essa resposta arrepiou todos os cabelos do meu corpo! Como oferecer um assado depois de ser abandonado pela amada?